Entra em cartaz nesta quinta-feira (26), a partir das 18 horas, na Associação Comercial de Santos (ACS), a exposição A fotografia do Morro, de Luiz Buscapé, artista visual que constrói sua obra a partir do cotidiano da periferia, revelando, por meio de imagens sensíveis e diretas, as múltiplas camadas da vida nos morros da Cidade.
Nascido na Divinéia, na Zona Noroeste, e posteriormente radicado nos morros, onde, como ele próprio diz, se “naturalizou”, Luiz desenvolveu seu olhar a partir da própria vivência.
Durante anos, conciliou o trabalho na construção civil com a prática da fotografia, registrando o que via ao seu redor: pessoas, cenas do dia a dia e paisagens atravessadas pelo concreto, pela repetição e pela resistência.
Sua produção fotográfica parte de um lugar de pertencimento. Não se trata de um olhar externo ou distanciado, mas de alguém que vive e constrói essas imagens de dentro. Esse posicionamento confere às suas fotografias uma força particular, capaz de revelar tanto a dureza quanto a beleza presentes nas margens urbanas, sem recorrer à romantização.
Projeção - O trabalho de Luiz Buscapé já começa a ganhar projeção em importantes veículos nacionais. O artista teve sua trajetória abordada na revista Piauí e participou da produção de uma matéria para o UOL sobre o menino Ryan, ampliando o alcance de seu olhar e consolidando sua presença no campo da fotografia contemporânea.
A exposição marca um momento decisivo em sua trajetória. Hoje, Luiz já não atua mais no trabalho pesado da construção civil como antes, mas carrega em sua obra as experiências que atravessaram esse percurso.
Esse deslocamento não apaga sua história, mas reposiciona sua prática artística, abrindo novas possibilidades de circulação, reconhecimento e continuidade. Com curadoria e produção de Andressa Oliveira, o projeto propõe uma reflexão sobre a invisibilidade de talentos periféricos, frequentemente atravessados pela urgência da sobrevivência. Ao mesmo tempo, tensiona as contradições de uma sociedade que, embora celebre discursos de inclusão, ainda oferece pouco suporte concreto para o desenvolvimento de artistas negros e periféricos.
A expografia incorpora elementos ligados à construção civil, como o uso do concreto em algumas molduras e na instalação central, criando um diálogo direto entre o conteúdo das imagens e a trajetória do artista. Esses elementos não aparecem como exaltação do trabalho duro, mas como vestígios de uma realidade que atravessa sua produção.
Mais do que uma mostra fotográfica, a exposição se configura como um gesto de afirmação. Ao ocupar o espaço institucional, Luiz Buscapé não apenas apresenta seu trabalho, mas reivindica presença, visibilidade e continuidade.
Serviço - A exposição ficará em cartaz de 26 de março a 24 de abril, na Associação Comercial de Santos (Rua XV de Novembro, 137, Centro Histórico), de segunda a sexta, das 8h às 18h. A entrada é gratuita.
